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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Lições drummondianas...


Quando era mais nova, meus mestres não me ajudaram muito a gostar de literatura... fui traçando meu caminho à esmo...

Não vou por a culpa toda neles é claro, sei que o sistema em que vivemos, não está ajudando muito um professor de escola pública...

É, eu sei que é triste...mas a situação nesse país, para quem vem de berço humilde não está fácil...principalmente na área da educação..

Mas voltando ao assunto( literatura), como diz o tema acima, irei colocar um poema de Drummond, no começo confesso, que os primeiros poemas que li dele não tinham surtido muito efeito, mas com o passar dos anos(quem lê pode até pensar que sou uma senhora falando desse jeito..rsrs), fui lendo e aprendendo algumas lições que ele escreveu... e que nos faz pensar em tudo em nossa volta...nesse universo maravilhoso...

bom!? Leiam e tirem suas próprias conclusões...


A Suposta existência


Como é o lugar

Quando ninguém passa por ele?

Existem as coisas

sem serem vistas?


O interior do apartamento desabitado,

a pinça esquecida na gaveta,

os eucaliptos à noite no caminho

três vezes deserto,

a formiga sob a terra no domingo,

os mortos, um minuto

depois de sepultados,

nós, sozinhos

no quarto sem espelho?


Que fazem, que são

as coisas não testadas como coisas,

minerais não descobertos__e algum dia

o serão?


Estrela não pensada,

palavra rascunhada no papel

que nunca ninguém leu?

Existe, existe o mundo

apenas pelo olhar

que o cria e lhe confere

espacialidade?


A guerra sem mercê, indefinida

prossegue,

feita de negação, armas de dúvida,

táticas a se voltarem contra mim,

teima interrogante de saber

se existe o inimigo, se existimos

ou somos todos uma hipótese

de luta

ao sol do dia curto em que lutamos.


concretitude das coisas: falácia

de olho enganador,ouvido falso,

mão que brinca de pegar o não

e pegando-o concede-lhe

a ilusão maior, a de sentido?


Ou tudo vige

planturosamente, à revelia

de nossa judicial inquirição

e esta apenas existe consentida

pelos elementos inquiridos?

Será tudo talvez hipermercado

de possíveis e impossíveis possibilíssimos

que geram minha fantasia de consciência

enquanto

exercito a mentira de passear

mas passeando sou pelo passeio,

que é o sumo real, a divertir-se

com esta bruma-sonho de sentir-me

e fruir peripécias de passagem?


Eis se delineia

espantosa batalha

entre o ser inventado

e o mundo inventor.

Sou ficção rebelada

contra a mente universa

e tento construir-me

de novo a cada instante, a cada cólica,

na faina de traçar

meu início só meu

e distender um arco de vontade

para cobrir todo o depósito

de circunstantes coisas soberanas.


(Carlos Drummond de Andrade, A paixão medida,Rio de janeiro,J.Olympio,1980,p.14-16.)

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